quarta-feira, 13 de julho de 2011

Trata-se da possibilidade de a fotografia nos mostrar algo - o que um quadro nunca poderia fazer - que nem sequer fora visado pelo autor. Um relance da realidade imediata. A técnica mais exata pode, continua Benjamin, paradoxalmente, levar o observador a procurar na imagem algo que ali se imiscuiu, sem que o fotógrafo tenha planejado. "A pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem." O invisível na fotografia, ;'o lugar imperceptível em que o futuro se aninha em minutos únicos, há muito passados, tão eloquentes que podemos descobri-lo olhando pra trás."
A "beleza única e nova" do rosto da mulher que, diz Proust, Dostoiévski trouxe ao mundo. Esta beleza secreta presente também em todos os quadros de Veemer - sempre a mesma mesa, o mesmo tapete, a mesma mulher, imanando esta impressão particular que a cor produz. Beleza que permanece idêntica em todas as obras de Dostoiévski, nas suas mulheres de rosto misterioso, capaz de mudar bruscamente, fazendo a mulher parecer diferente do que é. A mesma beleza terrível de suas casas grandes e sombrias. Aí se percebe a criação de uma alma das feições e dos lugares.¹
Mas, se o rosto pode ser apreendido na paisagem, a paisagem também pode ser captada no rosto humano. O cinema clássico russo ensina que a paisagem só se revela ao fotógrafo que sabe captá-la em sua manifestação anônima num rosto humano. O que esse cinema fez foi oferecer, pela primeira vez, uma oportunidade de aparecer diante da câmera a pessoas que nunca haviam pensado em se fazer fotografar. Homens que não pretendiam chegar à posteridade pelas fotografias e, por isso mesmo, transportavam para as imagens todo o seu mundo cotidiano.
Benjamin, colocou este paralelo entre a fisionomia e a cidade, tão caro aos retratistas do século XIX. De Baudelaire, ele aprendeu a ver a cidade como um corpo humano e a usar a técnica de sobreposição, que faz com que a percepção da cidade e do próprio corpo se confundam. Tentativa de flagrar esse momento em que o sujeito se inteira da fisionomia da cidade e ao mesmo tempo de si mesmo. Seu rosto então assemelha-se mimetricamente à cidade que ele habita. Essas fisionomias urbanas revelam tanto a silhueta das cidades quanto o perfil de seus moradores.

*Nelson Brissac Peixoto em Paisagens Urbanas.

¹ Marcel Proust, La prisonnière.


E quando a velhice chega bem antes de nos tornarmos sábias?

terça-feira, 28 de junho de 2011


promessa, poesia, Mabel
compositor de destinos, tambor de todos os ritmos: talvez o entendimento mais acalentador do que vem a ser o tempo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ser, na expressão de Valéry, o olho que transforma o muro em nuvem. Apoiar-se sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento, e dirigir o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta. Toda uma paisagística está contida aí. Capaz de- sem deixar de dar concreção e espessura às coisas- subtrair peso do mundo. Leve, mas precisa e determinada como o vôo de um pássaro. Capaz de tratar a gravidade com graça. "Retirar o peso" é transformar o mundo em paisagem, pintá-lo com aquarela, com pastéis. Buscar imagens de leveza - grãos de poeira que turbilhonam no ar. Aliviar a paisagem de todo o seu peso até fazê-la semelhante à luz da lua. Transformar tudo em luz: ideário clássico da pintura de paisagem.

* Nelson Brissac Peixoto em Paisagens Urbanas. Grifos da minha irmã, também meus.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tenha dó que ali sobram arestas, metades e quases. Tenha dó da menina, romanticida incompetente, cravo amassado em lapela de palhaço. Parte sem dó os pulsos da menina, hipérbole de vida que não vale se mal vivida.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aqui um dos poemas mais fortes (e esse é um dito íntimo) da antologia Poesia Russa Moderna, mostra realizada por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922).


Herdades noturnas, gengiscantem!
Crepitai, bétulas azuis!
Albas da noite, zaraturvem
Ao céu cerúleo mozerteante!
Goyam trevas como nuvens!
Roops¹ é um cirro soturno!
Voa uma tromba de risos,
Enfrento firme o verdugo,
Gargalham garras de gritos,
E em torno o silêncio escuro.
A mim convoco os valentes,
Saem dos rios os afogados,
O miosótis, estridente,
Declama a velames pardos.
Gira o eixo cotidiano,
Move-se a massa vespertina,
Nas águas da noite vogando
(Sonho) uma carpa-menina.
Mmáj² - pinhos ao vento!
Nuvens nômades de Báti!³
Como cains do silêncio
Palavras santas se abatem.
Passo tardo, cercado de tropas,
Asdrúbal azul vai ao baile das rochas.

1916

(Tradução de Haroldo de Campos)

¹Pintor e gravador belga Félicien Roops.
²O cã tártaro Mamáj (ou Mamai), cujo exército foi derrotado pelos russos no campo de Kulikovo. Essa batalha marcou o início da libertação da Rússia do jugo tártaro.
³Cã mongólico, fundador da Horda de Ouro; invadiu a Rússia em 1236.