É tarde.
sábado, 24 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
É bem provável que eu desista. Ontem desisti de um livro, hoje de me pentear, amanhã de você e depois de mim mesma. Daí a pouco, é bem provável que eu volte a brilhar por outras bandas, mesmo que brevemente, até que façam descer as levíssimas cortinas de poeira (repetir é um dom de estilo, não é mesmo?). Sou estrela dalva amor.
foi sem querer que ela falou
ela nem tinha pensado
foi sem querer que ela topou
ela nem tinha gostado
foi sem querer que ela matou
ela nem tinha atirado
* Bernardo Vilhena em Mulheres Célebres.
domingo, 4 de setembro de 2011
"Ela ajudou a levantar o corpo. Vestiu-o com seus enfeites de guerreiro, babeou-o, penteou-o, e engomou-lhe o bigode melhor do que ele mesmo o fazia nos seus anos de glória. Ninguém pensou que houvesse amor naquele ato, porque estavam acostumados com a familiaridade de Amaranta para com os ritos da morte. Fernada se escandalizava com o fato de ela não entender as relações do catolicismo com a vida, mas unicamente as suas relações com a morte, como se não fosse uma religião mas um prospecto de convencionalismos funerários."
* Gabriel García Márques em Cem anos de solidão.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
O amor (...) espécie de suntuoso presente que atravessa os séculos.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Trata-se da possibilidade de a fotografia nos mostrar algo - o que um quadro nunca poderia fazer - que nem sequer fora visado pelo autor. Um relance da realidade imediata. A técnica mais exata pode, continua Benjamin, paradoxalmente, levar o observador a procurar na imagem algo que ali se imiscuiu, sem que o fotógrafo tenha planejado. "A pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem." O invisível na fotografia, ;'o lugar imperceptível em que o futuro se aninha em minutos únicos, há muito passados, tão eloquentes que podemos descobri-lo olhando pra trás."
A "beleza única e nova" do rosto da mulher que, diz Proust, Dostoiévski trouxe ao mundo. Esta beleza secreta presente também em todos os quadros de Veemer - sempre a mesma mesa, o mesmo tapete, a mesma mulher, imanando esta impressão particular que a cor produz. Beleza que permanece idêntica em todas as obras de Dostoiévski, nas suas mulheres de rosto misterioso, capaz de mudar bruscamente, fazendo a mulher parecer diferente do que é. A mesma beleza terrível de suas casas grandes e sombrias. Aí se percebe a criação de uma alma das feições e dos lugares.¹
Mas, se o rosto pode ser apreendido na paisagem, a paisagem também pode ser captada no rosto humano. O cinema clássico russo ensina que a paisagem só se revela ao fotógrafo que sabe captá-la em sua manifestação anônima num rosto humano. O que esse cinema fez foi oferecer, pela primeira vez, uma oportunidade de aparecer diante da câmera a pessoas que nunca haviam pensado em se fazer fotografar. Homens que não pretendiam chegar à posteridade pelas fotografias e, por isso mesmo, transportavam para as imagens todo o seu mundo cotidiano.
Benjamin, colocou este paralelo entre a fisionomia e a cidade, tão caro aos retratistas do século XIX. De Baudelaire, ele aprendeu a ver a cidade como um corpo humano e a usar a técnica de sobreposição, que faz com que a percepção da cidade e do próprio corpo se confundam. Tentativa de flagrar esse momento em que o sujeito se inteira da fisionomia da cidade e ao mesmo tempo de si mesmo. Seu rosto então assemelha-se mimetricamente à cidade que ele habita. Essas fisionomias urbanas revelam tanto a silhueta das cidades quanto o perfil de seus moradores.
*Nelson Brissac Peixoto em Paisagens Urbanas.
¹ Marcel Proust, La prisonnière.
E quando a velhice chega bem antes de nos tornarmos sábias?
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